Memória, símbolos e comunidade imaginada: Angola nos 50 anos de independência – Alcides Sakala

Luanda – As comemorações do cinquentenário da independência nacional de Angola, que se realizam sob os símbolos do Movimento Popular de Libertação de Angola, trazem à tona o problema da relação entre partido e Estado. Mais do que uma escolha formal, esta sobreposição revela uma narrativa monopolista da história da independência, construída e institucionalizada ao longo de cinco décadas, excluindo os dois movimentos de libertação, a Frente Nacional de Libertação de Angola e a União Nacional para a Independência Total de Angola. Estes dois partidos, ontem movimentos de libertação, também lutaram de armas na mão para a conquista da independência, contra o domínio colonial português.

Fonte: Club-k.net

Joseph Ki-Zerbo (1973), refletindo sobre a história africana, sublinha que não se pode construir o futuro amputando o passado. Esta advertência ressoa fortemente em Angola. Ao excluir da simbologia nacional, ou seja, dos símbolos nacionais, a contribuição de diferentes forças políticas que desempenharam um papel fundamental na luta para a libertação nacional, torna-se parcial a memória coletiva, incapaz, assim, de alimentar o sonho de um verdadeiro projeto comum de construção de uma nova identidade nacional pós-conflito.

Por conseguinte, o cinquentenário da independência deve ser a oportunidade para a harmonização dos símbolos. Um momento de reflexão sobre os novos caminhos a percorrer para a construção de um futuro comum. O país necessita de novos símbolos que expressem a pluralidade e a unidade da nação angolana em construção, libertando-se das amarras criadas pelo sistema de partido Estado.

Anderson (1983) observou que a nação é uma comunidade imaginada. Não apenas imaginada, mas reproduzida por símbolos comuns, como bandeiras, hinos, monumentos e datas relevantes que funcionam como ferramentas do processo de construção da coesão. Sublinha ainda que as comunidades imaginadas sobrevivem porque os símbolos que as sustentam conseguem renovar-se. Criam, de facto, identificação na consciência colectiva das novas e futuras gerações. Se os símbolos nacionais continuarem a confundir-se com os símbolos do partido no poder, corre-se o risco da maioria da presente geração e não só, de não se reconhecer nessa narrativa militantista, de partido único, vivendo as celebrações da independência como um legado distante.

É tempo de mudança. Cinco décadas depois, há necessidade de se estabelecer o debate sobre a construção dos alicerces da nação angolana e da nova identidade nacional pós-conflito, no contexto da rica diversidade intercultural e linguística do país. De facto, o que deveria ser um símbolo nacional inclusivo, carrega uma forte marca partidária. A bandeira da República de Angola criada no contexto da proclamação da independência, em Novembro de 1975, reproduz integralmente as cores do Movimento Popular de Libertação de Angola, confundindo as celebrações da independência do país, com os seus símbolos. O partido Estado celebra assim, a independência como triunfo de um único movimento, mas esquece deliberadamente a pluralidade de trajetórias da luta anticolonial. Esse pseudo-esquecimento gera desconfianças, e mina a construção de uma memória colectiva partilhada, que deveria ser o alicerce da reconciliação nacional.

Por consequência , a questão central que se coloca ao país, ao entrar no segundo meio século da sua soberania e existência enquanto república, é se existirá a coragem de imaginar-se de novo, ou aguardar pela alternância. A independência, como conquista histórica, pertence aos povos de Angola, produto da sua luta, conduzida pelos movimentos de libertação, no âmbito da sua rica diversidade intercultural. Reconhecer isso nos símbolos nacionais, seria o primeiro passo para consolidar uma memória verdadeiramente inclusiva, colectiva e reconciliadora, capaz de sustentar a construção de uma comunidade imaginada que seja, finalmente, de todos. Por isso, é necessário construir -se a cidadania, que exige a criação de novos símbolos da República, que expressem a ruptura com a sociedade de militantes, e com o paradigma político-ideológico de “ nós “ e os “ outros”.

Alcides Sakala
Bibliografia

•ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. London: Verso, 1983.
•KI-ZERBO, Joseph. Histoire de l´Áfrique Noire, d´hier à demain. Paris: Hatier, 1978.

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